As artes e os Ofícios no Ceará, conheça a história do Palacete Thomaz Pompeu Sobrinho

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São os espaços e as estruturas que sempre testemunharam acontecimentos e marcaram ao longo da História episódios importantes, que podem ser relatados até os dias atuais. E para além desses espaços estão os indivíduos que estabelecem relações que se convertem em memórias e delas constituem as experiências de determinados grupos, muitos deles esquecidos, mas todos constituem a formação da sociedade.

Contar a história e reviver a memória são possibilidades de entender como a materialidade é apresentada; para muitos o objeto edificado apenas reflete a ideia sensorial de sua função, mas para outros sua função de pertencimento está para além do útil, dando sentido e adquirindo subjetividade, gerando conflitos. Contextualizar alterações, mudanças e estilos não se limita a estagnação da variação de humor ou de vontade, mas a própria experiência motivadora proporcionada pelos novos significados.

 As modificações que foram sendo estabelecidas em diversas comunidades e grupos históricos foram ganhando estilo e referências, assim foi a influência portuguesa e europeia no Brasil. De acordo com Santos (2005), até o período imperial, tudo que havia sido escrito sobre a arquitetura doméstica no Brasil resumia-se a descrições pontuais contidas em cartas e diários de viajantes e cronistas.

Ao longo dos anos e dos séculos essas “novas” influências foram ganhando interferências até mesmo criando uma forma própria de pensar em uma edificação genuinamente nacionais, contudo muitos aspectos continuam sendo reproduzidos aos modelos ibéricos. Assim foi a Belle Époque que no século XX fez retomar os aspectos, estilos e formas de construir e de constituir a arte, ideologias, principalmente nas edificações como a construção de uma ‘civilidade’ europeia. E é nesse recorte histórico que encontramos alguns aspectos que vão conduzir a residência do ilustre, Thomaz Pompeu Sobrinho.

São poucos os bairros de Fortaleza que concentram em seu entorno edificações com valores históricos e artísticos. Segundo dados da Secretaria de Finanças Municipal (SEFIN), constam, pelo menos, 268 imóveis registrados como centenários, distribuídos em 23 bairros da cidade. Jacarecanga lidera a lista com 36 imóveis. Assim também afirma Juan Nadson Marques Melo (2021) que ao circular pela área, é possível deparar-se com sobrados, casarões, vilas e também com resquícios da atividade industrial. Infelizmente, muitos dos edifícios representativos para a história do Bairro – e da Cidade – foram abandonados e/ou demolidos, devido à longa trajetória de desvalorização do seu patrimônio edificado.

 A segunda metade do século XIX, em Fortaleza, foi marcada por transformações decorrentes da economia, sobretudo do algodão, que era exportado ao mercado externo. Mas é a partir de 1860, com a Guerra de Secessão Americana, que a produção nordestina de algodão destaca-se mundialmente, em consequência da interrupção da exportação do produto pelos Estados Unidos (ANDRADE; DUARTE JUNIOR, 2015). De acordo com Farias (2012), o algodão foi responsável por dinamizar a economia. 5 No bairro Jacarecanga, os palacetes surgiram em lotes de amplas dimensões, a classe dominante era elitista. A aristocracia cearense, dentre elas as famílias Leitão Salgado, Meyer, Sampaio, Lorda, Leitão, Morais Correia, Figueredo, Proença, Silveira,Cordeiro, Moreira da Rocha (BEZERRA, 2007).. Um bairro importante já mencionado nos romances de José de Alencar que trás a referência do nome jacarecanga, de origem indigena, que significa cabeça de crocodilo, no verso o autor enaltece a sua geolocalização e o compara a altos morros de areia que encanta a beleza do local: “Distante da cabana se elevava à borda do oceano um alto morro de areia; pela semelhança com a cabeça de um crocodilo o chamavam os pescadores, Jacarecanga” (ALENCAR, 2005, p. 279).

 Entre as famílias abastadas da época está a do médico, empresário, escritor e políticobrasileiro, patrono da cadeira número 6 da Academia Cearense de Letras e filho de Senador Pompeu, Thomaz Pompeu de Souza Brasil Sobrinho, nascido em fortaleza aos 16 de novembro de 1880 e falecido em terras fluminenses aos 09 de novembro de 1967, um notável cearense que fez história em suas terra como em todo Brasil, era casado com Maria Alice Pompeu de Souza Brasil. Segundo pesquisas feitas com dados no projeto de conclusão do curso de Arquitetura, o artigo, O palacete e a vila operária:arquitetura residencial do bairro Jacarecanga em Fortaleza – CE de 1910 a 1940 em 1924, Thomaz Pompeu Sobrinho iniciou a construção de sua moradia, um palacete eclético, com ornamentação marcada pelo Art Nouveau italiano, que ficou pronto em 1929. Com toda notoriedade é o próprio proprietário, autor do projeto, teve inspiração em um palacete português que o avô havia admirado, afirma o mesmo autor. O imóvel, que conta com um mirante, era uma das edificações mais altas do Bairro à época, e foi a residência de Thomaz Pompeu até o ano de sua morte em 1967.

Dentro das pesquisas atribuídas ao processo de continuidade da residência dos Pompeu Sobrinho, encontramos o processo de compra e venda datado no final da década de 1990, a casa é posta à venda pela família proprietária, e o Governo do Estado do Ceará a adquire. O secretário de Cultura do Estado – SECULT, à época, Paulo Linhares, conforme nos afirmou Juan Nadson Marques Melo (2021), iniciou um projeto para a utilização do espaço. É daí que surge a proposta de uma escola que trabalhe com artes e ofícios na conservação e restauração do patrimônio material e, além disso, que se ocupe dos ofícios da tradição cearense (OLIVEIRA, 2019). Idealizado em 1997, mas entrando em exercício no ano seguinte de sua criação, o IACC (Instituto de Arte e Cultura do Ceará) é uma instituição sem fins lucrativos que promove a difusão do conhecimento e informação na área de arte e cultura. Com nome fantasia de Instituto Dragão do Mar,o IACC, vinculado à Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, é o órgão que gerencia e mantém a EAOTPS (Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho), além de outros equipamentos culturais no Ceará. No início dos anos 2000, o edifício passou por uma obra de restauro, resultado de parceria com o IPHAN-CE, a 6 Secretaria de Infraestrutura do Estado, o Serviço Nacional De Aprendizagem Industrial – SENAI – CE, o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil – SINDUSCON – CE.

 A escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho Na Modernidade, portanto, pode coexistir com a tradição. Ao invés de estarem em conflito, estão frequentemente se reforçando mutuamente. Os objetivos e finalidades podem mudar, mas ainda podem permanecer. A educadora Dayana Silva De Oliveira (2019) ao abordar o tema da educação patrimonial elenca a importância de uma valorização do cultural em sua relação com o indivíduo e este, por sua vez, inseridos nos espaços culturais possibilitando ressignificados. Dentro dessa perspectiva estão as artes e ofícios, que dentro dessa permanência veremos inserem-se na tradição e valorização da preservação desses espaços.

Imagem: Reprodução
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Fabrício Monteiro

Graduado em História pela UNESA/RJ, atua no grupo de pesquisa do Museu do Ceará (2021), Experiência profissional em Patrimônio Histórico e Cultural brasileiro, tendo atuado como monge e bibliotecário do Mosteiro de São Bento da Bahia (2015). Sua especialidade é educação patrimonial.

Artigos: 6

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