MARINÊS E SUA GENTE: MINHA HISTÓRIA COM A RAINHA por Juninho Batista

E lá se vão 13 anos sem Marinês, a rainha do xaxado.

Tive o privilégio de ser seu produtor e afirmo de forma visceral… que mulher! Que ser humano… que personalidade…
Falar do talento de Marinês, de seu canto e da sua importância para a MPB e para a origem do forró é chover no molhado. A importância da Marinês na cena musical brasileira é fato, embora eu ache que ela seja injustiçada no meio, há pouca lembrança e holofote acerca de quem tanto fez e contribuiu para a música de seu país e de seu povo.

Marinês já era empoderada numa época em que não se falava nisso, escolheu a indumentária de cangaceira em suas apresentações para se fazer rainha com seu canto marcante e único. Era generosa e sempre teve visão, foi a primeira artista a gravar Dominguinhos quando esse ainda era chamado de nenê sanfoneiro de Seu Gonzaga, e elevar o nordeste, o seu nordeste aos quatro cantos, recebeu do velho guerreiro o titulo de Marinês e sua gente, exatamente por carregar consigo essa identidade legitima do nordeste, da nordestinidade, logo carregava consigo seu povo, sua gente.

Marinês cantava a alegria de seu povo e as tradições juninas e as dores de um nordeste que era visto sob outra ótica, fez registros lindos em seus mais de 50 anos de carreira e se considerava cidadã do mundo.
Tenho saudades da artista, dos tantos shows que fizemos ao longo do tempo em que estivemos juntos, dentro da simplicidade que Marinês preferia, eram apresentações únicas, vibrantes, marcantes, emocionantes. Eu gostava de ouvir quando ela dizia: “no palco me sinto mais feliz, mais gente” e era exatamente assim, alí não havia fragilidade, nem idade, havia a cantora e a música, a artista e seu público e um nordeste inteiro carregado no gibão que usava de figurino e no chapéu de couro sua marca registrada.

Marinês era única dentro e fora dos palcos, dona de uma personalidade, de uma verdade e de uma precisão impressionante, na produtora tinha seu DNa em tudo, sabia o que acontecia, o que era negociado, mexia nos roteiros e repertórios, gostava de chamar os músicos antes do show para passar alguma musica e amava. Amava o período Junino, tinha respeito absoluto por músicos, admirava esse ofício, não admitia falta de respeito  ou desdém a qualquer colega músico, dizia que eles eram o show, que não há artista sem músico… era lindo de ver.

Mãe amantíssima de seus dois únicos filhos Marcos Farias e Celso Othon, a quem carinhosamente chamava de Marquinhos e Celsinho, seus dois amores e os netos Davi e Emanuel (infelizmente a Rainha foi embora antes de conhecer sua neta Maria Inês, filha de seu caçula Celso e muitas vezes fico pensando como seria se tivesse conhecido), pois era muito família Marinês, gostava dos amigos e não perdia contato com nenhum, com os que assim como ela eram artistas e os que não eram, não gostava de viajar de avião mesmo nas turnês nordeste em períodos juninos e mesmo cansada não abria mão de passar na casa dos amigos para dar um abraço, um alô e tinha uma espiritualidade, uma lucidez para esses temas que era de impressionar.

Fui com ela algumas vezes ao UDV (união do vegetal) e era encantador vê-la falar do Mestre Gabriel e dos núcleos, dá uma saudade de tudo isso, das mesas fartas em sua casa como casa de boa nordestina, sempre havia muito o que se comer e gente para comer. Tinha uma família musical, lembro dos irmãos Sussuanil, Marinalva, Lourival, todos excelentes artistas também, e era uma alegria de Marinês quando ia a Campina Grande porque revia sua mãe Dona Donzinha e tantos amigos da vida toda, aliás, Campina Grande era um outro amor da vida dela, adorava dizer que era melhor cidade do Brasil, que o clima era bom, as pessoas, as comidas e que tinha tudo.

Me dá uma saudade enorme de todos esses fatos, essas narrativas e tantas situações maravilhosas que tive a honra de viver com Marinês, esse vulcão de mulher, uma força natural das maiores que já vi em minha vida, na carreira e vida, tenho além da saudade que felizmente posso matar quando vejo vídeos, ouço suas músicas dessa grande companheira e parceira que tanto me ensinou, que generosamente me ensinou, dona de um coração lindo de mãe que agregava tantos amigos como se fossem filhos, sobre esse ser humano, essa artista e essa mulher, só flores em seu caminho.

Há dias em que a saudade aumenta mais, Salve Marinês! Viva Marinês e toda sua gente.

Sobre Marinês:

Biografia

Nascida em uma família humilde de São Vicente Férrer, no interior pernambucano, foi criada em Campina Grande, na Paraíba. Filha de pai seresteiro, aos dez anos de idade participou de um programa de calouros em uma rádio paraibana, ganhando o primeiro lugar, passando a cantar nesta rádio. Durante sua adolescência passou a acompanhar o pai em suas apresentações, onde, além de tocar instrumentos musicais, também cantava. Em sua juventude, passou a ganhar seu próprio dinheiro se apresentando em festas de aniversário, serestas, saraus e casamentos. Iniciou sua carreira artística na banda Patrulha de Choque do Rei do Baião, que formou com seu marido Abdias e o zabumbeiro Cacau para se apresentar na abertura dos shows de Luiz Gonzaga, viajando o Brasil inteiro, começando a ficar conhecida. Gravou seu primeiro disco em 1956, já à frente do grupo Marinês e sua Gente, com o qual se consagrou. A canção que consagrou Marinês foi “Peba na Pimenta”, de João do Vale, José Batista e Adelino Rivera, que causou polêmica na época em que foi gravada, devido ao seu duplo sentido. Ela aparece interpretando a canção no filme Rico Ri à Toa de 1957, Foi casada com o acordeonista Abdias dos Oito Baixos por trinta anos, com quem teve seu primogênito , Marcos José Caetano de Oliveira de Farias, nascido em 14 de setembro de 1961, em Campina Grande, onde ele seguiu a carreira artística musical como seus pais, atuando como músico e maestro e de Celso Othon de Oliveira seu filho caçula Marinês faleceu em 14 de maio de 2007, aos 71 anos, após sete dias em coma na UTI do Real Hospital Português de Beneficência, em Recife, em decorrência de complicações de um AVC isquêmico. O corpo da cantora foi sepultado no dia 15 de maio de 2007, no Cemitério Campo Santo Parque da Paz, em Campina Grande, na Paraíba.

Discografia

A Primeira canção gravada por Marinês foi em 1956, com Luiz Gonzaga, intitulada por Mané e Zabé.

Vamos xaxar (1957) SINTER (10 polegadas)

Aquarela nordestina (1959) SINTER LP

Marinês e Sua Gente (1960) RCA LP

O Nordeste e seu ritmo (1961) RCA LP

Outra Vez, Marinês(1962) RCA Victor 78

Coisas do Norte (1963) RCA LP

Siu, siu, siu (1964) RCA LP

Maria Coisa (1965) RCA LP

Meu benzim (1966) RCA LP

Marinês (1967) CBS LP

Mandacaru (1968) CBS LP

Vamos rodar roda (1969) CBS LP

Sonhando com meu bem (1970) CBS LP

Na peneira do amor (1971) CBS LP

Canção da fé (1972) CBS/Entré LP

Só pra machucar (1973) CBS/Entré LP

A dama do Nordeste (1974) CBS/Entré LP

A volta da cangaceira (1975) CBS LP

Nordeste valente (1976) CBS/Entré LP

Meu Cariri (1976)CBS/Entré LP

Balaiando (1977) CBS RIO LP

Cantando pra valer (1978) Copacabana LP

Atendendo ao meu povo (1979) Copacabana LP

Bate coração (1980) Copacabana LP

Estaca nova (1981) Copacabana LP

Desabafo (1982) Copacabana LP

Só o amor ilumina (1983) PolyGram LP

Tô chegando (1986) BMG-Ariola LP

Balaio de paixão (1987) BMG-Ariola LP

Feito com amor (1988) Continental LP

Marinês, cidadã do mundo (1995) Somzoom CD

Marinês e sua Gente. Raízes do Nordeste (1998) Copacabana/EMI

Marinês e sua Gente-50 anos de forró (1999) BMG CD

Marinês (2000) BMG CD

Cantando com o coração (2003) Independente CD

Marinês canta a Paraíba (2006) Independente CD

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Um comentário

  1. Parabéns Júnior!
    Só quem teve a honra de conviver com esse mito, pode descrever tão bem essa grande mulher!
    Assino embaixo tudo o que você falou sobre ela, porque também tive esse privilégio de conhecer a mulher por trás da artista!!!
    Muitas saudades!!!

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