“MEUS DIAS ERAM ASSIM” por Aurineide Camurupim

Bom dia, boa tarde e boa noite… não sei que horas você vai ler isso…
Bom… pra quem não me conhece meu nome é Aurineide, e pra quem me conhece o nome também é Aurineide, sou do interior do Ceará, Chaval… olha, a seca de lá é tão grande que as vacas não dão leite não, dão é queijo ralado. Hoje o povo tá falando de crise, mas a crise na minha vida existe desde a minha infância. Olhe que foi uma infância muito sofrida, eu na rua só de calcinha, brincando com minhas bruxinhas de pano, de esconde-esconde, de passar o anel, de macaca, de carimba… Aí minha mãe gritava: AURINEIDE CAMURUPIM DA SILVA SAURO BUARQUE DE HOLANDA, (quando a mãe chama o nosso nome completo já viu, né?) marche já pra dendicasa, diabo de menina malouvida, já faz três horas que eu grito por ti, peste, e tu nada de me escutar… naaam… E era assim meus dias, só no carão. A merenda era farinha d’agua com café, o almoço era subricú de capote e a janta, jerimum com leite. Agora vocês tinham que ver era    no natal… alí sim que era difícil… olhe, pra você ter uma ideia, ao invés de chester, era um pombo, minha mãe pegava esse pombo e colocava ele na cerveja. Aquele pombo passava uma semana dentro da bacia pegando gosto… menino, olhe… aquele pombo inchava dum jeito…(risos) aí minha mãe colocava o pombo numa bandeja na noite de natal, pra decorar, ela colocava umas folhas de castanhola pra colocar o pombo em cima… colocava também umas  bundas de tanajura pra dizer que eram as uvas passas, aí ela  chamava a primarada toda e dizia: come,  é chester, (risos), e os meninos tudo agarrado no pombo… olha, isso era no natal, porque no resto do ano a gente comia era calango. Menino, a fome lá em casa era tanta que eu olhava pro calango e dizia: é friboi? Eu só sentia o gosto de carne quando mordia a língua. Era muito complicado, também tinha outro negócio complicado que era os apelidos, hoje o nome mudou… é um tal de bulling. Porra de bulling… eu sofri muito isso… como eu era muito maguinha, eu tinha um bocado de apelido, me chamavam de tabaco seco, vara pau, seca do 15, pinguelo muxo… olha, pra ter uma ideia eu era tão magra que a primeira vez que eu menstruei, eu não usei um moddes, eu usei foi um band-aid. O pessoal da minha rua faziam muita hora comigo. Uma vez minha vizinha me perguntou; Aurineide tu tá muito magra, o que é que tu tá comendo? Eu disse: tô comendo o pão que o diabo amassou… e no colégio que era o cão mesmo… uma vez eu disse pra mãe: mãe, os meninos no colégio tão tudo me chamando de saco de osso, e ela disse: tá bom, minha fia, pois vá comer alguma coisa, senão nem o saco vai ter mais.
Gente, eu era tão magra que quando eu peidava, eu dava dois passos pra frente por causa do impulso, mas mesmo com toda essa complicação, esse sofrimento, eu era desejada, tinha sex appeal aflorado. Eu era igual a cream cracker, sequinha e gostosa. Diz aí que até um paquera eu arranjei na tertúlia… eu lá, bem quietinha, tava” tocando o lp década explosiva romântica, quando do nada aparece um paquera e começa a piscar o olho pra mim… o pobi era bem maguim também… mago, mago… parecia um cabra-cega. No dia da tertúlia, ele espremeu meu peito pensando que era uma espinha, mas aí, eu descobri depois porque ele era maguim… pois o caboco num era vegano… e eu só vim descobrir o que era vegano depois da nossa quase primeira vez… eu toda animada na festa, aí ele chegou no meu ouvido e disse: e aí, gatinha, vamos ali, detrás da moita… eu disse: vamos… eu nunca tinha feito o movimento… Eu, já toda animada, pois diz aí que quando chegamos na moita, eu tirei minha roupa, fiquei nua… pois diz aí que ele comeu a moita e correu, capou o gato, foi embora e eu fiquei lá nuazinha, abandonada. Aí depois que eu fui entender o que era vegano… naaam!

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