Qual é o teu Ceará?

O Ceará que eu nasci tem o rosto dos meus avós, uma certa inocência relativa ao mundo e uma grande casa que era todo meu Ceará. Tinham personagens complexos, situações difíceis, mas meu olhar não enxergava nada disso. Política? Só o fervor do meu avô assistindo as notícias locais somados ao medo da violência urbana estampado no rosto da minha vó. Meus tios completavam aquele que era meu estado. Lembro que na TV via
matéria sobre secas, sertões, forró pé de serra e já achava meu Ceará muito diferente daquilo, e eu nem sabia explicar onde aquelas matérias aconteciam. Na adolescência meu Ceará eram férias, eu não morei por aqui, mas eu me via entendendo muitos contextos da terrinha. O Ceará da minha adolescência tem shows gratuitos de rock na Praça Verde, vjs de uma TV local, praias, show de humor, forró pé de serra em locais específicos, shoppings, rodízios, e uma desigualdade latente. Meu Ceará privilegiado se deu conta da quantidade de famílias nas ruas, mazelas e novas realidades quando passei um ano aqui e estudei em escola pública. Nesse meu Ceará tinham pessoas que precisavam levar a merenda para a casa onde os pais comeriam junto a única refeição do dia, moradias em difíceis estruturas, chão batido, recorrência a fé para uma sobrevivência, mesmo que espiritual. Um Ceará já muito diferente da minha infância, onde o baião de dois era um símbolo de afeto da minha mãe que chegava tarde do trabalho e estava feliz de passar um tempo comigo e meus irmãos.
Já adulto e morando fixamente aqui me veio o Ceará dos prédios, Dragão do Mar, baladas, shows, faculdade, universitários, o cheiro de vinho barato, forró universitário, a felicidade e os sorrisos. No estoril alguns beijos, no carnaval muitos desejos e um forte cheiro de cigarro somado ao fato de que eu já não dependia financeiramente mais de ninguém dos meus outros Cearás. A terrinha me mostrou a rotina do centro de Fortaleza, a maluquice das empresas de telemarketing em uma exploração descomunal e em seguida das agências de publicidade. Meu Ceará já tinha muitos boletos e descobertas, líquidas, sólidas ou em comprimidos. A correria da cidade me deixou ansioso, me mostrou hospitais públicos, recebeu os meus amores e desafetos. Iracema, testemunha de assaltos, me viu virar noite com amigos. Essa terra me deu elos, laços, choros e alegrias. Na capital tem o forró, mas
meu Ceará é também muito Madonna, Bon Jovi, The Strokes, Ariana Grande, Lady Gaga, Harry Styles, e outras batidas fortes em boates LGBTQIA+. Meu Ceará é minha casa, miúda, com minha cachorrinha Matilda, minha rotina estranha, incensos, Alexa e muito medo de do nada tudo dar errado.
Esses foram alguns dos Cearás que eu conheci, tem muitos outros. O do gringo, o da favela, o do rico, o do ateu, o do religioso, o do playboy, o da população trans, o das mulheres, o dos homens, o dos políticos, o meu, o seu, o da seca, o do mar, o do cantar, o sofrer e o do penar.
No Ceará tem disso sim. Tem de tudo e me pergunto quando alguma celebridade diz que ama o Ceará, de qual Ceará será que ela está falando? O do hotel a beira mar? Será? Quando um político diz que vai cuidar do Ceará, qual é esse Ceará? Quando alguém passando necessidade se muda da terra para São Paulo tentar a vida, qual Ceará ele deixou para trás?
E para você, qual teu Ceará?

Sobre Nauan Sousa

Comunicólogo e trabalha há mais de 8 anos com Marketing Digital.
Atualmente possui a própria marca de comunicação, a No Cute Media, que age como plataforma de conteúdo acessível de marketing digital, disponibilizado consultorias, e-books e gerenciamento de redes sociais.

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