A Igreja de Nossa Senhora do Rosario dos Pretos em Fortaleza

Andando pelos arredores do centro da cidade,  entre comércios, lojas e lanchonetes, destacam-se alguns prédios históricos, dentre eles, um pequeno recinto religioso; Envolto por árvores centenárias, encontramos a igrejinha de Nossa Senhora do Rosário, datada, por volta de 1730, considerada uma das mais antigas construções religiosas da cidade de Fortaleza, localizada na Praça General Tibúrcio, mais conhecida como Praça dos Leões, escondida entre arranha-céus, outros prédios centenários, entre locais que formaram a construção social e cultural de uma poulação e que compõem um marco intrigante na história dos cearenses, principalmente, por tratar-se do primeiro Estado a abolir o trabalho de negros escravizados no Brasil.

Inicialmente, Sua construção, uma estrutura feita de taipa, de forma rude e simplória para abrigar os primeiros atos devocionais, na sua maioria, praticado por escravos e forros.  Atos, esses, inicialmente, permitidos pela elite, para que os cativos pudessem cultuar os santos católicos, e as festividades dos mesmos.

Segundo, Talita lima, aos 27 de outubro de 1747, acontece à primeira festa em homenagem à padroeira. “Daí em diante, bandos de congos formados por escravizados e forros vinham dançar todos os anos na noite de Natal em frente à igreja”. Com o risco de desabamento e necessitando de uma autorização eclesial, a Igrejinha,  até então de taipa, recebeu autorização em 1753, para ser reformada, dessa vez reconstruída em pedra e cal, como podemos encontrá-la atualmente. Sua participação na história local foi tão impactante, que em seu entorno, começaram a serem desenvolvidos atos culturais como o maracatu e outras manifestações religiosas. Um marco importante para seu legado cristão, foi o fato de durante as reformas da Matriz de São José, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, servir de Catedral, sediando a arquidiocese de Fortaleza como igreja principal.

Dentre outras manifestações culturais existentes no Estado do Ceará, o maracatu, tem suas origens ligadas a uma possível encenação, descrita, segundo a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Fortaleza:

 “Assim, era na igrejinha do Rosário… que se procedia ao ritual da coroação do rei, do rei dos Congos, do rei do Rosário, com sua rutilante coroa à cabeça, seu vistoso manto de tecido de algodão aveludado, de um vermelho vivo, contrastando com colete verde e calças azuis, e sempre acompanhado de sua corte, de onde se destacavam as figuras do “príncipe” e do “secretário”, com seus chapéus de abas largas enfeitados de brilhantes conchas. E pelas ruelas nascidas na beira do mar, rumo ao sul vinha o cortejo, cantando e executando bailados e jogos de agilidade, simulando combates, rumo ao Rosário”.

O grupo de fiéis ligados à igreja do Rosário descreve  o primeiro momento do maracatu, umas das expressões mais fortes da cultura cearense. O maracatu surgiu  entre missas e cantos no Rosário? Entre chicotes e “avi marias”? Entre o grito de liberdade e  os grilhões da vida infeliz de seus primeiros fiéis? Não sabemos ao certo, porém entre as tradições, naquele recinto, cultuada, o maracatu ganhou forças e podemos afirmar que recebeu bastante influência dos irmãos do Rosário, principalmente por ser de uma manifestação ligada a tradições culturais dos povos que afirmavam a fé naquele Templo, uma igreja que refletia a sua identidade negra. 

A igreja do Rosário foi palco de manifestações religiosas e também políticas. O templo serviu muitas vezes de palanque para atos partidários. Ocorrendo um conflito mais grave, como nos relata a Irmandade do Rosário, quando das eleições realizadas em setembro de 1848, resultando em  um derramamento de sangue dentro do próprio recinto sagrado, a capela foi interditada, sendo posteriormente arrombada pelos líderes de um dos partidos políticos. 

A Igreja do Rosário é testemunha de fatos históricos importantíssimos. Outro momento que até hoje acontece em torno de seus atos culturais são os eventos devocionais, ocorridos por ocasião da semana Santa, esses acontecem sempre com grande piedade e tradição, dentre eles destacamos a “procissão do fogaréu”, sempre realizada na quarta-feira, “maior”. Caracteriza-se como uma manifestação da cultura tradicional popular que, nos ritos da Semana Santa, representa a “quarta-feira de trevas”, em que Cristo é perseguido e preso pelos soldados romanos por ordem de Caifás. Conforme a tradição, os soldados romanos são representados por personagens encapuzados e trajando túnicas, denominados “farricocos”. Seguindo esta tradição, em Fortaleza, o evento tem o mesmo formato. Ao som do ritmo cadenciado dos tambores, a procissão tem início, às 20:00 horas, saindo da sede da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário em direção à Igrejinha no centro.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

IRMANDADE, Rosario. História da Igreja do Rosario, blog, 2011. Disponível em: https://irmandadedorosariofortaleza.blogspot.com/ Acesso em: 20/07/2021

LIMA, Tatiana. A Origem da Igreja do Rosario em Fortaleza. Ceará Crilolo, 2019.
Disonivel em: https://cearacriolo.com.br/a-origem-da-igreja-do-rosario-em-fortaleza/
Acesso em: 20/07/2021

Francisco Fabrício da Silva Monteiro
Graduado em História pela UNESA/RJ

Imagem padrão
Fabrício Monteiro
Graduado em História pela UNESA/RJ, atua no grupo de pesquisa do Museu do Ceará (2021), Experiência profissional em Patrimônio Histórico e Cultural brasileiro, tendo atuado como monge e bibliotecário do Mosteiro de São Bento da Bahia (2015). Sua especialidade é educação patrimonial.
Artigos: 2

Deixar uma resposta