Os Painéis da Igreja Matriz de São José do Ribamar

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Em seus 36 km de praias na costa banhada pelo atlântico, encontramos no litoral leste do Ceará a pacata cidade de Aquiraz, importante para a história dos cearenses, sendo a primeira vila da Capitania em 1699,  guardiã de um acervo cultural e artístico de valor inestimável. Entre suas ruas e avenidas encontramos  prédios de significativas influências, entre os bens tombados temos: O Museu Sacro, oriundo do século XVII anteriormente denominado Casa de Câmara e Cadeia,  tombada pelo Patrimônio Público Estadual em 1983; nas proximidades fica o Mercado da Carne, tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico  Nacional)  em 1984; além destes, a residência do Capitão Mor e as ruínas do Hospício dos Jesuítas são integrantes da paisagem histórico-cultural de Aquiraz e entre esses espaços situada ao centro da cidade está a Igreja Matriz de  São José de Ribamar que se destaca tanto pelo seu valor histórico, religioso e artístico, possuindo em seu interior um dos registros mais emblemáticos e intrigantes da história da arte cearense.

Entre posses e trocas, em 1654 os europeus aqui dominantes, eram os holandeses, logo em seguida expulsos por Portugal, e esses por sua vez tomam o território para  seu domínio e exploração econômica, certamente, houve confronto, contudo a estratégia de trocar armas por civilizar os nativos era uma das práticas de um certo grupo religiosos advindo com os portugueses, os jesuítas que entraram nas terras do Siara Grande com um propósito, levar ‘civilidade’ e doutrina para aqueles pagãos.

A paróquia é instalada em 15 de agosto de 1713, inicialmente não foi uma vontade por parte dos seus primeiros pregadores em assumir a missão de catequizar os nativos, O padre João de Matos Serra, segundo Serafim Leite (1943), negou-se a assumir a paróquia de Aquiraz, contudo por obediência e seguindo os incômodos do ser bispo de Pernambuco, deslocou-se para a vila a fim de ali fazer missas.  

Os Painéis da Igreja Matriz de São José do Ribamar, são esboços artísticos que contextualizam a formação do povo cearense, mas quem os produziu? Em que contexto social estavam seus criadores? Essas perguntas estão ligadas a muitas respostas sem resolução. Em meio a disputas por domínio nas terras de ventos fortes e mar esverdeado não se sabe ao certo quem introduziu e idealizou o projeto da pintura dos painéis. Segundo nos afere Lúcia Helena Galvão, pesquisadora dos painéis da Igreja, toma-se por atribuição da autoria os próprios nativos convertidos ao catolicismo ou até mesmo os missionários da Companhia de Jesus, nesse processo de colonização e da própria catequese Jesuítica no Ceará, esses, por sua vez, foram expulsos em 1759 a mando do marquês de Pombal, possivelmente interrompendo a conclusão da obra,  nessa perspectiva encontramos, entre três dos seus últimos octógonos, (formato em que os afrescos foram idealizados) a ausência linear da história de José, o Carpinteiro.

O conjunto de pinturas somam o total de 15 molduras em formato octagonal, localizado na parte do teto da Capela-Mor, altar principal da igreja, onde se pode observar 12 das pinturas a óleo à vida de São José, pai adotivo de Jesus que em sua rápida passagem nas páginas dos Evangelhos demonstra a figura paternal, divulgada pela doutrina cristã e a presença dos diversos episódios em que são narrados a própria vida de Cristo. Porém percebemos  a presença ou ausência  em três painéis que estão em branco. Na obra Painéis de Aquiraz: Joias da Arte Popular do Ceará Colonial da citada Lúcia Helena Galvão, contextualiza detalhadamente o enredo e o estado de conservação em que se encontra cada painel e nos apresenta um alerta para a preservação dessas obras, pois as mesmas perduram mais de dois séculos resistindo aos próprios intempéries da sua natureza bem como da ação humana.

O Iphan no Ceará, sempre esteve propondo a pesquisa e os meios de conservação dessa obra de valor inestimável para a história da nossa arte popular, trazendo assim perspectivas de estilísticas e composições para entendermos a construção da obra, inclusive, a autoria dela uma vez que a inspiração dos rostos e das fisionomias dos personagens alí contextualizados representam figuras típicas do cotidiano cearense tanto em sua fauna como em sua flora e nessa mesma estrutura conflitua com as influências europeias, dando a percepção de um impacto direto sobre o seu suposto autor ibero. O mesmo órgão federal, proporcionou em 2013 o restauro do forro e das pinturas, por ocasião dos 300 anos de evangelização da Paróquia de Aquiraz, proporcionando assim o deslumbre e a reflexão de todo o público que  visita. Ao passar por Aquiraz não deixe de visitar esse importante espaço de arte e construção da história do Ceará e dos cearenses.

Fonte:

GALVÃO, Lúcia Helena. Painéis de Aquiraz: Jóia da arte popular do Ceará colonial. Fortaleza: Instituto Olhar Aprendiz, 2010.

http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/376/igreja-matriz-de-aquiraz-ce-tem-paineis-restaurados-e-entregues-a-comunidade

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Fabrício Monteiro

Graduado em História pela UNESA/RJ, atua no grupo de pesquisa do Museu do Ceará (2021), Experiência profissional em Patrimônio Histórico e Cultural brasileiro, tendo atuado como monge e bibliotecário do Mosteiro de São Bento da Bahia (2015). Sua especialidade é educação patrimonial.

Artigos: 6

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