REPRESENTATIVIDADE IMPORTA MESMO? por Nauan Sousa

Você já deve ter ouvido a frase “ Representatividade Importa ”. Mas, você já parou para pensar se representatividade importa mesmo? E se sim, porque ela faz e como faz tanta diferença na vida de pessoas? Vamos dialogar sobre isso!

Para começarmos a entender melhor esse lance de representatividade, é importante a gente determinar o que é isso afinal. Esse termo significa a expressão dos interesses de um grupo (seja partido, classe, movimento, nação) na figura do representante . No viés social é uma competência atribuída a um indivíduo ou uma entidade fundamentada na habilidade apresentada para desempenhar tal papel . Traduzindo um pouco, essa representatividade, na arte, que é o viés que vamos abordar nesse texto, se traduz em um papel, série, novela, programa de tv, que represente algo. E quando ouvimos que isso importa para a minoria, precisamos ir um pouco mais fundo em nossa análise.

O Brasil é o país que mais mata LGBTQIA+ no mundo, de acordo com relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2019 foram registrados no país 329 mortes violentas, sendo 297 homicídios e 32 suicídios. Essa estatística é reforçada por uma sociedade conservadora que carrega uma imagem de vilania dos membros da comunidade. Vamos ser
diretos, ok? Nosso país é brutalmente desigual e figura 60ª posição em ranking de educação em uma lista com 76 países. Somos uma nação educada principalmente pela TV, rádio, meios de comunicação que chegam fáceis a realidade das pessoas. Nem todo mundo tem acesso a uma escola, nem todas as pessoas priorizam leitura, conhecimento, pois precisam comer. Fica para a TV, cinema e outros o papel de “educadora”? Talvez. Um relato simples ainda desse ano pode nos jogar uma luz. BBB 20, a participante Manu Gavassi falou o termo “sororidade” ao votar em um participante, a palavra já comum no meio acadêmico despertou interesse na população e automaticamente teve um aumento de 250% de pesquisas no Google. Ainda sobre o reality show, foi na pandemia que a atração bateu o recorde mundial de interação com 1,5 bilhões de votos. Viu só o poder da TV? Um exemplo tão simples e tão próximo pode nos dar uma margem sobre a potência de um discurso dito para uma massa. Essa mesma TV reforçou diversos esteriótipos da comunidade LGBTQIA+ por anos. São inúmeros papéis ligados a culpa, chacota, e até vilania sendo entregues indiscriminadamente a uma população que estruturalmente não tem a mínima noção do que é o diverso. Quem não lembra de crianças consumindo ‘Meninas Super Poderosas’ onde o vilão era a imagem do diabo em um personagem afeminado? Isso diz muito sobre como representaram a comunidade por anos.

FOTO: REPRODUÇÃO

Um caso a ser relembrado agora, foi de uma mãe que matou o próprio filho por ele ser gay. Itaberli Lozano tinha 16 anos, sua mãe o matou a facadas, queimou seu corpo e ao ser questionada sobre o homicídio brutal ela confirmou que fez isso porque ele era gay e aquilo não era normal. O quanto de estrutural há nessa frase? O quanto aquela mulher construiu o conceito de normal baseado no que ela viu e ouviu nesses meios de comunicação?
Enquanto a comunidade for retratada como inimigo, boa parte da população terá esse discurso. Então você consegue entender a força de uma comunicadora como Patrícia Abravanel chegar em horário nobre e dizer que ser gay não é normal? O como isso talvez não pareça grave, mas que estruturalmente ecoa em um lugar em que aquilo pode colocar a vida de pessoas em risco?

Outro caso a ser falado é o racial. Veja esse vídeo quando crianças definem que boneca é boa ou mal através da cor de sua pele:

Essas crianças nasceram com essa construção racista? Não, mas elas já muito novas foram jogadas para esse mundo e já absorveram isso tudo. Já que citamos BBB, o ator Babu Santana com 20 anos de carreira precisar entrar em um reality para ganhar a visibilidade que ganhou é normal? Estou falando de um artista premiado com mais de 40 trabalhos no currículo. Sabe quem tem quase o mesmo tempo de estrada que ele? Bruno
Gagliasso. Sabe quem tem menos tempo? Caio Castro. Agora compara a visibilidade deles 3 e me diz porque Babu precisou de um reality. E se você não se convencer, temos aqui uma lista de papéis nos quais colocaram Babu para atuar.

FOTO: REPRODUÇÃO

O mesmo se coloca na representatividade da mulher em diversas produções. Na era do streaming, podemos ter acesso a muitos títulos de novelas antigas e vemos falas extremamente machistas sendo empregadas como comuns, a banalidade da violência doméstica e outros temas absolutamente urgentes. Dali você consegue enxergar pensamentos de pessoas mais velhas da sua família, e começa a ter noção da ótica do
mundo naquele tempo. Mas, se assusta ao perceber que não estamos falando só de um discurso de produções de 1900 e lá vai bolinha, estamos falando de 2000 pra frente, o quanto nós também fomos e somos impactados por falas problemáticas que impactam o social.

Por isso é importante estarmos livres dos nossos preconceitos ao entender que para a maioria da população o que é dito por Luciana Gimenez no Superpop tem mais sentido do que o que é dito por Aristóteles. E é o que é! A partir dessa realidade é buscar a tal da representatividade, mas não essa carregada de caricatura e mazelas sociais que estamos acostumados, mas uma representatividade que inclui as pessoas trans, que tira a caricatura
de gays e lésbicas, que humaniza a população negra, que não condena as religiões de matrizes africanas, que não rotule as mulheres, etc.

Por fim essa representatividade importa, uma vez que ela mexe na base, ela é fundamental e ela pode mudar realidades. Porém precisamos estar atentos a que tipo de representatividade colabora com um mundo menos doloroso e qual corrobora para a solidificação de preconceitos.

Sobre Nauan Sousa

Comunicólogo e trabalha há mais de 8 anos com Marketing Digital.
Atualmente possui a própria marca de comunicação, a No Cute Media, que age como plataforma de conteúdo acessível de marketing digital, disponibilizado consultorias, e-books e gerenciamento de redes sociais.

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@nocuteagency

Um comentário

  1. Legal o texto, parabéns 🙂

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